Domingo

do que sobeja incessante


"Barcos de pesca no mar", Vincent van Gogh

navegante enquanto
eu for
serão palavras
meus navios
sem sóis ou faróis
deserto e solidão
meu mar

perdida a primavera
da rosa-dos-ventos
entre correntezas
e sextantes
sobejam desencantos
eu sitiado em minha
dor por desaguar

Quinta-feira

das primícias da estação


"Mulher em frente ao espelho", Pablo Picasso


Para Kezia Domingues


mesmo circunavegando
por desertos
reconheço em você
festejos da brisa e
signos da primavera
que se desenha irisada
desde sua chegada

entre acordes ou poesia
em voos de solfejar
sol que sucede a chuva
em surdina
fresta que ilumina
toda e qualquer espera
pelo amor que não surgia

Sábado

dos compassos do silêncio


"Menina com o mandolin", Pablo Picasso

se quando percorro
tardes e entrelinhas
silêncios disponho em
lugar de palavras
estes lapsos na pauta
são respostas do
meu coração
que entristece

por saber o amor
sem semibreves
ou fugazes o sonho e o
instante da estrela
e recolho minhas asas
feito lira que
também anoitece

Quarta-feira

por muitos quadrantes


"A praia de Sainte-Adresse", Claude Monet

se meus olhos velejam
por tanto desencanto
é porque sei meu coração
sem lugar para atracar

sobra-me tão pouco
quase nada a avistar
neste mar que percorro
sem nenhum alento

porém vez ou outra
arrisco um verso
e lanço a palavra minha
na órbita do vento

Segunda-feira

Quixote entre moinhos desfeitos


"Dom Quixote", Salvador Dali

na tablatura deste
inverno que silencia
não encontro vestígios
de palavras minhas
se procuro sonhos
na paisagem

eu que regia os ventos
hoje indago esfinges
sobre onde estarão
meus moinhos
neste deserto que
tomou o meu olhar

Quinta-feira

no silêncio do ocaso


"Paisagem com o castelo de Auvers no pôr do sol", Vincent van Gogh

à linguagem dos sinos somo
os contrapontos da luz
mesmo que vãos meus apelos
pois das asas o voo gestual
não me leva o desencanto

e eu que antes menestrel
agora entre reminiscências
adormeço palavras
meus sonhos revoam e
tudo fere a tarde em mim

Quarta-feira

à sombra das águas


"Figuras na praia", Pablo Picasso

lanço âncora em
lugar de palavras
meu périplo resumo
a uma lira de silêncios
por dedilhar

aportado na solidão
meu coração é
apenas um barco
sem resposta
fazendo apelos ao mar

de claves e de partituras


"Os três músicos", Pablo Picasso

teço canções em
compassos
de moinhos de vento
e assim apascento
a solidão que
carrego comigo

mas se arcana me
foge a palavra
a dor solfeja e
promessa nenhuma
me oferece abrigo

Sexta-feira

nas vagas da poesia


"Barcos", Arcângelo Ianelli

tempestade sejam ou
ainda que calmaria
trago contidas as palavras
à solicitude dos ventos
respondendo com um não

à deriva vai meu coração
brancos versos meus navios
que a dor faz soçobrar
mais oceanos e desertos
silenciando meu olhar

Segunda-feira

não sendo tempo de aflorar


"Impressão, sol levante", Claude Monet

do prefácio ao fim
esculpe o outono em mim
o enredo desta manhã
eu em invernal solidão
pétala nenhuma ou amor
ao alcance da mão

gládio de sol e neblina
triste sina é constatar
que do meu coração ou
de seus quadrantes
nada venha a vicejar

Terça-feira

do que vejo na paisagem


"Paisagem de outono com barcos", Vassili Kandinsky

assim percebo o outono
neste prólogo da estação
um palco para múltiplos
quintetos de aves
ou mesmo sem um único
gesto dos ventos
um cais de despedidas

nele aporto tristezas
eu que en passant entre
pétalas esquecidas

Segunda-feira

do que assim me emudece


"Outono na Bavaria", Wassili Kandinsky

perdido que foi
o veio da poesia
já não garimpo versos
e sei fugazes desde a
palavra que não medra
aos rompantes do coração

ironia de bateia vazia
feito diamantes na
manhã encontro
vislumbres de orvalho
mais ausências do outono
e o amor sem floração

Quarta-feira

entre as matizes da estação


"Paisagem de outono", Vincent van Gogh

de soslaio o coração nada
diz assim inconfesso
palavras enredadas nos
quadrantes do outono
verso nenhum se detendo
nos acenos de abril

conspirações do vento
tramam naufrágios
amarelecidos e quedos
são folhas meus sonhos
e uma dor sem intermezzo
eu sépia no azul da estação

Segunda-feira

outono, rondó e fuga


" Paisagem em Saint Remy", Vincent van Gogh

a solidão afugenta
palavras em bando
e à deriva no silêncio
que cerceia versos
o exílio dos olhos não
encontra o sol em lugar
dos pássaros migrados

diferente do que
prometera a primavera
ou a estival estação
que agora em ruínas
meu coração declina
sem outro pressuposto
que bater desabitado

pois não regressa o amor
a lugar onde nunca
houvera ancorado

entre as águas sobrevindas


"Paisagem de Auvers depois da chuva", Vincent van Gogh

sem reminiscências do
azul que se exilara
tão somente o gris nos
domínios da paisagem
mais o deserto nas mãos
e no coração o silêncio
do que não medra

palavras não engendradas
onde o sol fora deposto
reinam acordes desferidos
pelo minueto da chuva
confundindo-me os olhos
desaguando arabescos
de sal e de solidão

Terça-feira

num caminho que vai de Éolo a Chopin


"A noite estrelada", Vincent van Gogh

assim o pólen dos
sonhos
um contraponto ao
dia encerrado
fazendo da noite
lago constelado

eu que tudo contemplo
na solidão pereço
noturno é a música
do vento
ferindo a mim em
arpejo lento

Quinta-feira

nas brumas do que me falta


"Campo das papoulas", Vincent van Gogh

eu já tive nos olhos
o lume da estrela
mas adagio que não ouço
a felicidade de mim
não mais se avizinha

e agora não me bastam
o enlevo de brisa e palavra
ou presságios do outono
nesta tempestade sem
abrigo que é a solidão

e vão é mais um
dia terminado
dissonância na harmonia
da paisagem a luz em fuga
e o amor um cais
não encontrado

Quarta-feira

quão concludente um ocaso possa ser


"Passeio ao crepúsculo", Vincent van Gogh


vai além do gestual de asas
a insígnia dos pássaros
para esse desamparo
que me atrela ao chão
e tênue é a fronteira dos azuis
nesse longe onde
o coração dispus

não é ária ou elegia
a dor que me confunde
está estampado assim
nos vitrais da tarde
o que eu sempre soube
não fosse meu destino
de nele nunca navegar

e mar claro seria o amor
ainda que apenas céu
sobre mim o firmamento

Terça-feira

Cecília Meireles em mim


Cecília Meireles por Arpad Szenes

soçobram meus sonhos
assim como morrem
os meus navios
há muito não me reconheço do
lado de dentro do espelho
e sei que as minhas mãos
ambas se quebrariam
se o mar tocassem

por isso não me esqueço
nunca de você
quando vejo asas em
vôos rimados
ou mesmo a lua dispersa
e prometo ficar atento
aos motivos da rosa
se descuidado o vento
a despetalar

pois você, Cecília
umedece meus olhos
há muito empedrados
ante este mundo
por reinventar

Sábado

ainda que poente o sol


"Semeador com pôr do sol", Vincent van Gogh

perspectivas ausentes
o que o coração procura
é um ponto de fuga na
arquitetura da tarde
e aplacado o sol em fúria
sinos sem falsete trazem
a sagração dos pássaros
e uma simples conclusão

seja nos jardins do Éden
ou mesmo neste labirinto
esta vertigem de sonhos
celeuma de asas e palavras
que denominamos vida
nada mais é que um avarandado
à espera do amor por visitante

Quarta-feira

mais ausente que jogral


"Violino e guitarra", Pablo Picasso

debandadas as palavras
no coração meu a vida
feito página desabitada é
moinho a esmo remoendo

e vou como que morrendo
sem horizonte ou ocaso
cultuando o gris com que
a tarde erige seu mural

eu na solidão assim ilhado
pássaro trôpego e silente
em meio à chuva vesperal

Sexta-feira

da cor do que não permanece


"Gokula", Henrique Coutinho

qual a chuva ou o vento
o amor sempre me foi assim
algo arredio em seus súbitos
pelo que vejo paisagem
em despojos da tarde finda
ou na madrugada da estrela
que ruma incerta

dele me ficou o invisível
da solidão sem entretanto
como se do mar em lugar
do azul uma lembrança de sal
rastro de um indelével
instante de quase pranto
dor violeta na hora estival

Sábado

entre as ondas e outros mares


"Marinha com barcos", Arcangelo Ianelli

um navegador sem leme
ventos, bússola ou maré
eu ao adentrar pé ante pé
o oceano desta existência
o que explica as primaveras
tantas não singradas
os amores que não lograram
o mar da plenitude

eis o mapa de tal vicissitude
a recusa permanente e sem fim
ante um outro continente
ao deixar a vida inclemente
tatuar indelével em mim
nada além deste destino de
tropeçar na estrela caída ou
de na minha própria tempestade
soçobrar a cada tarde

Quarta-feira

do mar do amor que eu não singrava


"O mar de Pourville", Claude Monet

um barco sem ventos em
odisséia por hemisférios
distante do sol da paixão
é como hoje eu me retrato

vendo exígua e baça a vida
que constelada então sonhara
um gris sem leste aquele céu
que o azul antes engendrara

o coração meu aos poucos
se percebendo estanque
qual rosa que fora vermelha
e ora se revela exangue

Domingo

a sina do que não se pode habitar


"Quarto de dormir em Arles", Vincent van Gogh

perdido o encalço do
périplo da estrela
meus olhos já não alçam
grandes vôos
triunfa o desencanto
sobre todos os sonhos
muito da noite restará
ainda ao amanhecer

a vida seguirá estival
na próxima estação
e eu que colecionara
ventos e presságios
se ainda aqui
semearei a solidão
espargindo alguma poesia

o coração cumprindo
inelutável um destino
de casa vazia

Sábado

no interregno do ocaso


"Paisagem com casa e lavrador", Vincent van Gogh

perambula concomitante
aos arroubos do sol
meu anônimo desencanto
e eu que quase sempre ontem
anseio um outro agora

mas a palavra não suprime
nem preenche ausências
diz-me a turba de pássaros
que pela tarde arvora
sentenciando o instante

e nada põe termo ou fim
à solidão renitente
que ladeia permanente
entreatos do coração
recôndito em mim

Quinta-feira

no labirinto das estações


"Primavera Sagrada", Paul Gauguin

tudo quanto vicejava
era testemunho de que
os ritos do pólen
se mostraram fecundos
enquanto confirmadas
as lendas da estação

só eu destoava dos vôos
de asas e girassóis
contrapondo ao irisado
profuso de pétalas
descaminhos eternos
de um trôpego coração

eu que nascera outonal
e há muito sabia a primavera
desfeita em mim

Sábado

a solidão como sextante


"Barcas de carvão", Vincent van Gogh


o que o traslado do sol
alardeava como novo era
só mais um novembro
e entre as dunas do tempo
eu contava nos dedos tudo
que o vento me levara

ah, quão pouco me restara
além de um destino assim
atracado ao desalento
eu que nunca tive o mar
mas conhecera do amor
tempestades e vazantes

eu que criara portos
em inúmeros desertos
por ter riscadas nas
areias de cada mão
a palavra e o desatino
como rotas por singrar

não muito longe da Arcádia


"Paisagem noturna com lua cheia", Vincent van Gogh

mesmo que bem pouco
me assemelhe a Pã
já não tenho o afã de
um dia ser amado
adverso meu destino de
pelas ninfas sempre
ser abandonado

poderia vê-las então
como parte do arvoredo
ou sendo ecos do passado
já que Selene me apraz
porém qual a vida ou
a noite estabelecida
este amor também fugaz

Sexta-feira

de argonautas e poetas


"O Mar", Claude Monet

retomo o leme da palavra
ainda que da estrela o assédio
já não seduza o meu olhar
eu que fui de tantos sonhos e
hoje sem horizonte por singrar

do amor motins não debelados
para o coração a vida soçobrada
assim o abissal inóspito da solidão
e o que o verso não redimir
dor será em eterno navegar

Quinta-feira

no silêncio que entremeava a manhã



"Paisagem em Auver na chuva", Vincent van Gogh


o desencanto não faz versos
diz-me na celebração da primavera
o coração assim cerceado
pois nenhuma mísera palavra
retive no esconderijo das mãos
desde que o dia se fez começado

a poesia na bruma a se esconder
em escombros os castelos meus
nenhum moinho então por mover
hoje tudo traduz o que é desalento
se percebem fugaz a areia dos sonhos
saberão cruéis os passos do vento

Domingo

cantiga para um rio de inúmeras margens


"Mulher na janela", Pablo Picasso

para Márcia Maia

um orquidário de versos tua
poesia por uma lira acalentada
assim em sexteto executada
a palavra espreitando oceanos
por redemoinhos, sóis e altiplanos

atando pétalas ao cotidiano do
que medra em circunstância
seja a estrela celeste ou do atol
lua e amor em quarto crescente
a pedra da rua ou o azul lençol

espelhos, rios, varanda e entreatos
dias santos ou encantos do pecado
tudo no teu canto, tudo faz pensar
que o gris deve sempre ao irisado
ceder tanto a vez quanto o lugar

encontro ainda breves adagios
e mais do que a tarde abreviada
para além de sombra e catavento
o que fere e o que acalanta
e um girassol que se agiganta

Sábado

do que se avistava


"Girassóis", Vincent van Gogh

tão diferente do girassol
o coração meu não sabe
mais espreitar amores
cego assim o périplo dos olhos
às iluminuras desta vida
continente que confesso
eu nunca soube aportar

eclipse de tardes e sombra
sorrateiro é o desencanto
tecendo mosaicos de dor
e no caleidoscópio da primavera
entre centúrias de estrelas
avisto da solidão os matizes
que me impedem o sonhar

Quinta-feira

ante um céu ensurdecido


"Montanhas de Saint Remy", Vincent van Gogh

se trago perdidos os olhos
no emaranhado das nuvens
preciso de um tempo que
anterior à tempestade
pois nos bosques adormecidos
indistintos são os gritos
da solidão e do vento
entre o ocaso e as potestades

em mim as dores são tácitas
feito indícios da primavera
refazendo o viço dos campos
e na imensidão que contemplo
se meu coração for confrontado
vestígio nenhum do amor
como o fogo ou múltiplas rosas
será então encontrado

de uma dor que amanhecia


"Sombras no mar", Claude Monet


uma brisa destinada a
imaginários moinhos e velames
presságio da luz começada
estampou no meu olhar
abismos do amor ausente

manhã de desertos
que se fazia infinita
a vertigem do silêncio
secara assaz então
meu oceano de palavras
entre acenos de outubro
e os abandonos do azul

passava ao largo a
inexistência de gaivotas
ou de algum outro cais
menor que era ela ante
a solidão vingando
barcos em mim

Terça-feira

impossível ainda que amor


"Salgueiros no por do sol", Vincent van Gogh

mal a paisagem acolhera
confidências da primavera
percorri palavra por palavra
os abismos de pedras e ruas
a hora indócil da solidão
e entre funâmbulo e beija-flor
vi incerto o mapa do coração
em seu tortuoso navegar

olhos tateando o ocaso
assim entre a brisa e o verso
procurei um irresístivel istmo
que inapelável nos atasse
mas o amor propunha oráculos
em meio aos azuis e descaminhos
sem que eu ou mesmo a tarde
pudéssemos desvendar

Segunda-feira

a rítmica da estação que se celebra


" O Jardim do hospital de Saint-Paul", Vincent van Gogh

ainda que efêmera a palavra
a poesia percorre outubro
o amor adentrando a casa
inesperado o novo norte
em mim assim a ancorar

e se havia a espera da pétala
ou também do giro do catavento
tornava-se irremediável agora
a saga do fogo e das asas
tais os súbitos da floração

depois avançada a primavera
no coração e nos hemisférios
meus versos mesmo que descalços
tocarão então um outro chão

Domingo

insofismável é a sua chegada


"Retrato de Dora Maar", Pablo Picasso

canção incerta o amor
que chega entre enigmas e
penínsulas circundantes
palavra provocativa a me
morder assim os lábios
qual serpente e princesa
evocando danças e o sol
na tangencial dos sinos

dispõe tardes e interstícios
essa emoção que agora
mapeia o coração ou o
diapasão de outros versos
os meus universos tantos
sonho e mosaico enfim
esta dádiva e este encanto
fazendo ceder da solidão
o fio que me era atavio

solfejos matinais para Assis de Mello


"Cisnes refletindo elefantes", Salvador Dali

não trompete a mim
definir se você Salvador
daqui ou de acolá
ante a surrealeza dessa verve
poesia de estalactites que
respinga alumbramentos
e ressoa tríades dignos
da Guimarães prosa

Isabelas sistinas, pedras
ruínas de verões andarilhos
serpentes, domos, pomos
naturezas tortas e assentes
lesmalucas ou mesmo
o dia que se ancora em
estrelas camulfladas
são a gênese dos sete dias
da sua criação

diria que seu céu abobadado
não é mais azul renitente
se assim belo e violáceo
daí resulta que mais e só
importam seus versos
sacrílegos sobre telas

ou as aves que dançam balelas
enquanto férteis os nimbos
se exaltam e se acumulam

Sábado

a tecelã em quem eu me enrodilhara


"O Sonho", Pablo Picasso

Para Diva Paiva

inútil me esquivar da mão
que estende do novelo o fio
quando não mais sei o que
manhã ou labirinto
se a vida é fábula ou mito

desvendando quadrantes
qual Ariadne vem você
me segredando à meia voz
quão simples o que a mim
negaceia como trigonometria

Minotauro aturdido
no centro da arena ouço
da mais bela exegeta
que o amor é tão somente
o sol que varre intempéries

a brisa que sine qua non


"Nuvem de Cobre", Henrique Coutinho

há muito que trago
as asas quedadas
o coração em surdina
do horizonte fiz
então cidadela
o verso meu tem o
recato da solidão

desde que passem
ventos certeiros
de um amor a mim
endereçado
recolherei murmúrios
de pétalas
ou quem sabe revérberos
de estrelas pelo chão

Sexta-feira

a quem me desperta para sonhar


"Head", Pablo Picasso

Para Diva Paiva

neste arquipélago da
solidão que me ilhara
eu que não ousei dos
mares a travessia
pergunto quanto dista
o azul que nos separa

ouço das salamandras
que afins que são
amor e fogo se conjugam
no quanto irradiam
cúmplices do sol e do ar
feito mantra e pentagrama
ou como cores no tear

estrela que não alcanço
vislumbro você assim
primavera que a
pouco começada
o que o coração meu
ainda não cumprira
a esfinge não desvelada

Quarta-feira

um chão que não de sete mares


"O Farol", Anita Malfatti

nos ideogramas da
tarde indecifrável
a rosa dos ventos era
antes rota de labirintos
do que rumo para o sol

farol e pressuposto dos
estreitos da solidão
que se adivinhava
o amor me deserdara
na faina de cada dia

dissonante então a vida
apontava-me mais
desertos para os passos
que oceanos imensuráveis
aos anelos do coração

Segunda-feira

um solilóquio que perdura


"Retrato do Doutor Gachet", Vincent van Gogh

à sombra assim da estrela
este monólogo começara
feito brisa clandestina
impondo não mais buscar
uma nesga de felicidade
pois que impossível deter
os ímpetos do tempo ou
a hora da sorte perdida

promessa então poente
o canto do realejo silenciado
era antes constatação do que
mais uma esfinge ou profecia
e ante a vastidão que não espera
eu mais estátua do que asa
a vida e o azul doendo em mim
sem piedade ou meio tom

Sábado

longe do que constelava


"Casa amarela", Vincent van Gogh

janelas cerradas
estrela por estrela
já não conto mais
resguarda-me dos
confrontos
minha casa amarela
nela eu tão atrelado
à rédea da solidão

distante do amor e
de seus gládios
o coração meu é
um vertiginoso barco
de arribação
um arco sem alvo
girassol sucumbindo
às antíteses da luz

Terça-feira

mesmo que a ela faltassem as flores


"Vairumati", Paul Gauguin


alude a Gauguin
sua pele como que
matizada pelo sol
que ondula em
mares do sul
olhos e cabelos de
imensidão não e
nunca constelada

taitiana em Minas
este seu rastro de
trópico e paraíso
paira acima de toda
possível cor cotidiana
beleza assim outorgada
alegoria e felicidade
primitivas em mim

Domingo

eu, Cervantes e os moinhos de vento


"Dom Quixote", Álvaro Reja

resulta em nada atrelar
a chuva aos campos
se o sol em clave se
esgueira à Mantiqueira
incidentais à tarde sim
são as rebeladas asas
como o flautim que faz
estirar a serpente

assim o vento que
acomete moinhos
nada sabe, inocente
de vãs fantasias:
nenhum desdém a
quem canta este mote
se assim tão quixote
ninguém tanto
quanto eu

nem uma cor sequer


"Rimbaud", Pablo Picasso

no que esboço meu
lápis, pena e não palheta
a tristeza me lograra
nem mar ou terra
por morada

então ao sol em seu
sobe e desce escada
pergunto à custa de
quanto guache e água
o azul se perfazia

eu que hoje inexorável
à têmpera de setembro
ou à própria poesia

o gris riscando em mim
tudo que não grafado
em tom nanquim

Sábado

ainda da safra que se perdera


"Pier Itágua", Carlos Herglotz

se bem pouco me dizem
a estrela quando hesita
ou o vento que tumultua
naipes de pétalas
é por semeaduras
não vingadas

perdida nos dedos foi
a conta das palavras
endereçadas a oceanos
entre outros azuis
o coração ilhado vi
aos poucos cegar

já não me alucinam
o vórtice das asas e um
outro mar que não este:
antes que tardios velames
e primaveras indecifradas
insuflado o desencanto
sopesa assim em mim

de mais um dia que me escapara


"Nuvem e Serra", Henrique Coutinho

mais que silhuetas
de aves e moinhos
ou nenhuma sílaba
costumeira
silente o poente rubricava
o cimo da paisagem

eram brisa e tarde
em torvelinho
eu por réu e testemunha
sem saber conjugar ao certo
tempo e modo meus
de existir

Terça-feira

antes das futuras constelações


"Barcos de carvão", Vincent van Gogh

asas confundiram-se
esvoaçando silêncios
na tarde que fora campo
tão fértil para o sol
e pela hora em fuga
logo seria noite intensa
talvez até em demasia

estrela qualquer que
por ali orbitasse
negaria a mim veredas
e definitivos que eram
os dedos dos ventos
inclinavam-me mais que
a trigais adormecidos
aos estaleiros da solidão

Domingo

escolhidas as cores do auto-retrato


"Luz das estrelas sobre o rio", Vincent van Gogh

meu é este coração tão
espoliado da sede
que agora estanque
minhas as mãos que
adelgaçam reminiscências
de vertiginosas estrelas
ainda que nada reste ali
das promessas vazias
de ancoradouros

sou sim a memória dos
equívocos de pétalas
na ruína desfolhada
de tantos calendários
o registro nas estações
dos amores fugidios
que marcharam ao largo
mas antes ubíquos
nos meus dias à
semelhança do azul

Sábado

do que se perdera na estação anterior


Claude Monet

antes de a primavera
chegar ao seu destino
eu tateava setembro
porque me roubado
dos olhos o alento
o brilho constelado
e sem panegíricos ao sol
o azul já não me reinava
como antes absoluto

da minha lira esmaecida
indagava-me uma nota
sobre aquele coração que
decifrava os ventos:
onde eu o deixara ou
onde ele se perdeu
aquele moinho de sonhos
que outrora girava
dentro do peito meu

ante o céu que não me levara


"O Rio", Claude Monet

pássaro que almejara
os presságios do sul
eu não mais compunha
o vértice de asas na
geometria da tarde
inerte ante os arroubos
e a primazia do sol

sem as prerrogativas
do azul e do vôo
restara-me cumprir um
itinerário de solitário rio
o coração exilado em
remansos e quedas
entre pedras meu remar

Terça-feira

eu que tão longe do novo mundo


"Cabana de pescadores", Claude Monet

paisagem que mareja
à passagem do olhar
vejo velhos continentes
outras milhas desconheço
que não o périplo da dor

gaivotas silencio com
barco nenhum ou
ninguém por chegar
rumo outro às velas
meu coração nunca
soube instigar

tristezas costeiras
há muito que regem
dessas águas o leme
tempo infindo faz
apropriaram-se do
que era meu mar

Sábado

Odisseu alheio às sereias


"Ulisses e as sereias", Pablo Picasso

já não fazia valsar a estrela
a sinfonia do cosmo silenciada
nem me devolviam os mares
o quanto a vida me saqueara
alertaram-me jardins que
amor-perfeito apenas era
epíteto de uma flor

mas em sonhos eu ainda cria
embora já não os tivesse
e nem ouvisse das sereias o canto
eu que num recôndito do peito
aquele oceano esquecido
trazia tatuadas indeléveis tintas
matizando o desencanto

nenhuma estrela no deserto


ilustração para o Livro das Mil e Uma Noites,
Luís Filipe de Abreu


concludente o vento
que de sonhos me
esvaziara a mão
nenhuma tâmara
para este coração
que se sabe beduíno
que o sol vive a crestar

entre dunas de solidão
o amor em mim é sede
indagando oásis
miragem a felicidade
que nunca pude tocar

Sexta-feira

Sísifo à minha maneira


"Paisagem em Murnau", Wassily Kandinsky

um girassol contemplativo
acompanho a tarde desfeita
seus ritos de passagem
esperando das vagas o regresso
incerto de barcos e amores
reminiscências que se dissipam
nos moinhos de Khronos

não bastará da noite
o ricercare gotejando
volutas de estrelas
ante o que vi ficar invisível
o vazio que me atinge em cheio
não é azul nem vesperal
tem algo que beira o infinito
peso de uma ou mais eternidades

Quarta-feira

quase uma ode a Dioniso


"Dioniso criança"

da manhã as tríades
clamavam por passos
perder-me ali seria
então celebrar a vida em
festejos de vinho e pão
um tácito sim dizer às
circunstâncias do vento
num ínterim de sol

pouco eu ambicionara
além da primavera
em lugar do silêncio
que se agigantava
matiz outro ao coração
propiciar
e um levante de asas
assim talvez permitisse
desvencilhar a teia
os nós da solidão

Terça-feira

sem a intervenção de Homero


Claude Monet

barco vazio de presságios
eu sem deuses ou estrelas
tateava da tarde os enigmas
na travessia do outono
sem saber quanto tempo
o coração pode esperar

testemunharam por
mim vôos e gaivotas
eu perdera o horizonte
na confluência dos azuis
eu que não nasci Ulisses
e tanto quanto de amores
nunca soube do mar

o zodíaco de quando cheguei aqui


"Mãe e criança", Pablo Picasso

novembro anunciava
eclipses quando nasci
numa quarta-feira, manhã
de vinte e nove labirintos
certamente que um dia
roubado da primavera
de anjos que se ausentaram
ou de sol em desalinho

um instante de pássaros
endereçados ao nada
frágil gládio de velas com
o horizonte confrontado
tudo assim denunciado
nos arabescos do destino
e no azul não se desenhava
nenhum luminoso vaticínio

Domingo

do céu que ainda restara


"Campo de trigo com ceifeiro e sol", Vincent van Gogh

albatroz clamei
sobre oceanos
sem burlar o avizinhar
de espectros
ritos meus não afugentaram
salteadores de estrelas

não detive o vento
com apelos de pétala
nem a lágrima reticente
impediu-me dos olhos
o transbordar
vazante da maré

restou abandonar a leste
os mapas de levantes
esquecer da lua o encalço
outros azuis tecer
percorrer trigais em
lugar da escuridão

o que me vai na algibeira


"O semeador", Vincent van Gogh

pouco depois que nasci
concedeu-me asas
um hierofante e
também o medo das alturas
com água, vento e fogo
foi sacramentada a
minha solidão

desse labirinto sépia que
é o ontem do meu tempo
às avessas palmilhado
restam cicatrizes no rosto
do coração ferido em ocasos
reminiscências de estrelas
pouco mais a ser levado

carrego comigo alguns
versos de memória
eu que me atenho ao
nexo das palavras
mão nenhuma presa à minha
e ainda a própria sombra
que ora se me esquiva
se foge de mim o sol

o tempo e seus anelos


"Jardim Florido", Vincent van Gogh

o calendário ansiava
a primavera
tempo era de libertar
a beleza da clausura
das torres do inverno

transposto o fosso
das estações
setembro que chegasse
entre cores levadiças
revivendo girassóis

cavaleiro andante
o sol delegou a mim
cultivar flores
sobrevindas
semeando poesia
pelo chão

rapsódias do fogo


"Mantiqueira", Henrique Coutinho

descuidado o sol
deixou a paisagem
incandescente
já que ainda acesas
suas brasas
em meio à turba de asas
que nas distâncias
submergia

ali na tarde eu via
um dos meus desatinos
em rapsódias que o
coração não cessava
sempre que ateadas
antepassadas feridas
exumar amores
o lidar com fogueiras
adormecidas

Sábado

sem as bençãos de Netuno


Claude Monet

pelos rochedos
estilhacei ondas
das aves orquestrei
a debandada
ungindo com o sol
mais de uma enseada

destinos ordenei
aos barcos
os ventos dispus
em quadrantes
à paisagem dei azuis
acrescidos de rompantes

no cais sonhei com quem
não e nunca me quis
enquanto o mar soçobrava
entre o amor e seus anis

antes fronteiriças que luminares


"Mesa em frente à janela", Pablo Picasso

seja a estrela ao horizonte
sobrepondo-se
nascente o dia ao leste
ou a pétala pelo vento
sequestrada
o que por elas entra ou
o que sai e vai embora
tudo faz delas liame
entre meu mundo e
o universo lá fora

as fronteiras da casa é
de lei que são as janelas
se por insone ou triste
ao certo não sei
não tenho visto sonhos
escapulindo por elas

Sexta-feira

para quem faz tanger a minha lira




não vim das Plêiades
porém qual Mercúrio
trouxe minha lira
arauto que sou
de sete cordas
e se paro aqui não é tanto
pelo que corri alvissareiro
a orbe que num átimo
circunavegada

mas para com meu
capacete alado reverenciar
quem me impõe tão
célere o coração
e as sandálias minhas
também descalçaria
para tocar o mesmo chão
que recebe os teus pés

dos cortejos de Éolo


"Maison Maria", Paul Cézanne

de adestrar os ventos
então desisti
capitulando ante tão
imensuráveis rastros:
desalojadas as nuvens
janelas devassadas
a paisagem em desalinho

se impossível confiná-los
já que indômito o frenesi
melhor colher os frutos
do que percorre a rebeldia
eles transpondo meus recados
um destino dado à minha poesia

Quinta-feira

muitos quadrantes depois


"Menina com barco", Pablo Picasso

quisera o teu amor
mas naves mercantes
desviaram nosso encontro
era outra a rota dos mares
no assinalado do mapa
do teu coração

mareante que pouco sabia
do teu império
para moeda de troca
eu guardava apenas
uma estrela
na palma da mão

arcanos lunares


"A lua", Tarsila do Amaral

assim a lua é símile
à solitude de um veleiro
funambulando na bruma
fracionada quase ao meio

serial então ela ruma
elíptico dela o enleio
e mais dia menos dia
propor-me-á uma questão

quando ela for plenilúnio
eu que já tive momentos
mais constelados
continuarei no rés-do-chão

Quarta-feira

do meu caderno de viagens


"O anjo ferido", Hugo Simberg

ávido de azuis
com os olhos desenho vôos
pelo que longe e sempre
acima de mim

anjo sem plumagem
rastejo quedas
mortal e tão reles
que nunca querubim

prefaciando a chuva


"Nimbus", Henrique Coutinho

dos nimbos o rufar
mostrou-me do azul a ira
por meus olhos de tantos
outros céus colecionados

ali onde asas encenaram
festejos e ritos
não mais um porto
para celebrar
suspensa que ficava
assim a tarde

eu que sofria a amplidão
bateia nas mãos
apenas procurava o sol
garimpando sonho
algum que restasse

Domingo

eu que não Narciso


"O Mito de Narciso", de Caravaggio


no lago contemplado
não me encontro
se miro dele o espelho
vejo-me sol eclipsado
a luz do lado do avesso

perscruto então
as estações
no outono me reconheço
qual abismo de verões
e primaveras
eu que sou tão fim e
quase nunca começo

Sábado

à deriva mesmo sendo nauta


"Barcos de pesca no mar", Claude Monet

sem luneta ou escotilha
não soube vislumbrar
que na paisagem de todo mar
ainda que sendo azuis
haverá asperezas e
desvãos abissais
qual propõe o amor a
corações desiguais

erradio em semelhança
a um barco sem quilha
naquele índigo mergulhei
soçobrando na armadilha

de mares ausentes e primaveras esmaecidas


"Mar selvagem", Claude Monet

escrevo para preencher
vastidões de um mar ausente
e esmaecidas primaveras
redimir amores e estrelas
que vi naufragar
versos estes tão meus que
se me tornam estranhos
tal o silencioso orquestrar

asas que não reconhecem
o próprio ninho
têm sim estas palavras meu rosto
entalhado pelo desencanto
face que quase pergaminho
mas ninguém sabe o que me dói
só Deus e eu sabemos quanto

interlúdios à parte


"Birds Sunset" (http://zhurnaly.com/images)

não sei se voltarão
esses pássaros
que me sobrevoam
em sua jornada
pelo crepúsculo

eles que rumam assim
surdos aos interlúdios
do azul e da tarde
alheios a amores
sinos calando tal
a algaravia do voar

vejo-os sem a submissão
dos presos ao chão
perfilado desafio ao ar
enquanto pesa em mim
feito bronze uma
solidão a qual nada
parece ombrear

Terça-feira

de cultivar as deusas


detalhe de "O nascimento de Vênus", Boticelli

em lugar de Deméter
foi Afrodite quem espargiu
nas orlas do peito meu
tais campos de trigo
deles palavras germinaram
versos plenos de boa lavra
florescente a paixão

só não se vaticinara
ante abundância tamanha
da dor o jugo inesperado
o sonho então devastado
a colheita desfeita
deserto assim o chão

revelava agora a paisagem
uma Circe inclemente
o amor já dissidente
lamentos tais, ais bemóis
o que alimentara
tornado agrura
mais a solidão em
sua semeadura

Domingo

a poesia de Creta


"A queda de Ícaro", Jacob Peter Gowy

da gaivota não
tenho as asas
outro é meu passo
voar não posso
embora em rompantes
de Ícaro
ambicione o sol

a poesia minha é
o que sinto
sendo por vezes
palavra
outras tantas
labirinto

se dela fujo
morre-me o eu
primeiro como
que em queda
depois afogado
em águas do
mar Egeu

em Minas navegar


"Vale", Henrique Coutinho

horizontes de cobalto
confinam segredos
barrocas memórias
de ricas vilas
silêncios e clamores
do inconfidente lutar

da outrora capitania
não mais veredas do ouro
já que idos impérios e sóis
restam páginas de um
ideário então nascente
a liberdade que urgia
a forja incandescente
de poetas e heróis

nessa Geraes tão
artífice da história
sem um oceano onde
se pudesse navegar
em minha vida inglória
fiz dos sonhos meu barco
deste chão meu eterno
e único mar

Sábado

dos oceanos de outrora


"Barcos de pesca na praia", Vincent van Gogh

onde passaram navios
e sonhos tantos
agora nenhum velame
ou um mero barco
o mar que eu carregava
nos olhos
há muito que secou

hoje meu olhar
mais que continentes
vê desertos do convés
a solidão, suas dunas
meus desencantos secretos
eu errante a noroeste
lendo amores de viés

Quinta-feira

no jardim de Chronos


"Primavera em Giverny", Claude Monet

adeus agosto fronteiriço
diz a meus olhos já sem viço
o coração vazio de anelos
chegará a estação sobrevinda

a seu modo a primavera
registrará o tempo ainda
não a átimos de ponteiros
mas com primícias da florada

ampulheta de cores e não
um continuum de areia
pétalas que irão embora
como versos que a dor semeia
quando a vida não aflora

Quarta-feira

mea culpa, xadrez e horizontes


"O poeta", Pablo Picasso

por ter o passo enrodilhado
não me apropriei das alturas
nos cimos não fiz morada
nem também soube buscar o sul

faltaram-me não só as asas
para pássaro ser no azul
abandonar antigos ninhos
eu que tão ao chão condenado

eu que nada, nada fiz
eu que tanto quis ser como
o sol enquanto ave de fogo
agora sou apenas um velho rei
uma peça fora deste jogo

Terça-feira

deste inverno quase nada


"Paisagem de inverno", Wassily Kandinsky

deste inverno
levarei quase nada
aquarela de frios dias
solidão de quem fica
ante um céu de aves
em debandada

como a natureza que
às flores da primavera
há muito renunciara
o coração coleciona
ausências semeadas
travo de acenos num
cais sob lua clara

feito estátua eu assim
palimpsesto de mármore
como quem nada espera
como quem tudo perdera
e com o vazio se depara

versos para Graça Pires


"Mulher com livro", Pablo Picasso

deram-te os deuses
a palavra encantada
as prerrogativas da pétala
o insurgir da madrugada

tecelã de tardes e oceanos
ensinas a não desdenhar a brisa
num credo onde o amor é irisado
o plenilúnio parte da jornada

é teu o ofício de legitimar primícias
descrever os périplos do sol
por mais que cinco continentes
mesmo que more ele em tua casa

agora sei que foram sempre tuas
todas as estrelas que eu mirava

Sábado

nem tão mágicos assim


"Velho guitarrista", Pablo Picasso

mesmo que insuspeita
soe a palavra
verso algum fará ocultos
do amor os desfiladeiros
onde se extraviam os ventos
ocasos sucumbem
e o azul das tardes
desatina

nenhum verso
esconderá à surdina
desvãos e portos
onde atracam desalentos
onde sóis perplexos
tornam marejados
os olhos meus
ante a cabal visão
da própria sina

das águas que não chegam às pedras


"Campos sob um céu tormentoso", Vincent van Gogh

salvo estaria o dia
se das formas tantas
nimbos ou seja poesia
se revelassem em arco
uma paleta de cores
de sete pincéis a luz
ainda de ouro o pote
extremo posicionado

para tornar cessado
mais do que depressa
premente, não depois
da dor o cruel aluvião
para salvaguardar
resgatar meus olhos dois
que soçobram em
rosto alagadiço
enquanto a aridez
de desertos
fustiga o coração

Sexta-feira

quadruplicando Ubatuba


"Ubatuba quatro vistas", Carlos Herglotz

uma azul janela
vidraça para o tempo
poderiam ali estar
quatro estações
ou do dia quatro estágios
mas é outro o adagio
pois que barcos em procissão
flora, céu e litoral

povoado de sol e sal
casas e casas de então
uma matriz igreja
a capela amarela
da fé abrigos que são
mais a serra que festeja
o tão presente mar:
apenas quatro cantos de Ubatuba
se outros tantos por mirar

Minas naif


"Minha querida Minas Gerais", Carlos Herglotz

tão breve o vilarejo
dessa Minas panorâmica
onde tudo é primavera
já que de flores feito o chão

ali aos céus sobe a igreja
da serra os azuis também vão
cores outras constroem o casario
na terra segue solta a criação

escutar se pode ou o que é
trote, sinos ou mesmo passos
entre silêncios tantos do cenário
certamente que lá ainda se reza
e a beleza impõe o breviário

oráculos, pitonisas e oceanos


"O mar em Saintes Maries de la Mer", Vincent van Gogh

diz uma atenta leitura
das estrelas
sibilas vaticinam
que deste mar serei
atestam-no o que fora velejado
e tormentas percebidas
porque do amor nada sei

a solidão, suas águas
este destino nas areias
da mão vincado
o coração soçobrado
em vagas azuis morrerei

Quinta-feira

pegasus na paisagem


"O cavalo branco", Paul Gauguin


velozes são os corcéis
que trazem a palavra
da vida que vai ao largo
o passo é presto também

céleres as sílabas
do vento
fugidia a emoção
ante a algaravia que
alcança todo confim

onde agreste e amplidão
dividem silêncios
ouço o bater do coração
o tropel da poesia em mim

Quarta-feira

de continentes perdidos


"O navio de escravos", John Wiliam Turner

com suas linhas de sal
machucou meu rosto
o tempo ido
mais do que faria o sol
se eu zarpado vida adentro

aferrei-me à terra
no medo ancorado
navegando não vislumbradas
enseadas
perdido foi o encalço dos ventos

quando o mar olha-me sem fim
pergunto-me como pude ser
tanto, tão náufrago de mim

Terça-feira

do que me move o olhar


"Brisa do Verão", Linda Rauch

pedra que sou
não fiz do vento morada
embora atento a seu tropel
entre ocasos e campos

qual a natureza
à sua passagem
reverente inclino-me
contemplo-o ecoando
vivace

sabendo-o célere
tanto quanto o tempo
rastro de quase nada
exceto pétalas no chão
suas legítimas pegadas

Domingo

um poste nas cercanias do imaginário


"Poste", Henrique Coutinho

verde o campo de degredos
muralhas em azul redor
ali onde não há o mar
imensurável é o silêncio
que remói sem cessar

estática qual totem
de um poste a solitude
sustenta fios e
sinais de outrora

gris são os vaticínios:
galopam nimbos
a chuva não demora

após o nascimento ao leste


"Manhã", Henrique Coutinho

recolhidas estrelas
emaranhados da
noite desatados
para a floresta encantada
o sol promulga rituais

da manhã nada se ouve
nem das nuvens irisadas
e nascente entre a neblina
a luz perfaz
da serrania e de seus picos
monumentos, catedrais

sobre a estação circunvizinha


foto: d'Angelo

perdoe-me agosto
do calendário aguardo
setembro
os solfejos da primavera
itinerários de tardes e
poesia
sem mais todavia

índigos, azuis
as demais cores
o inverno que finda
a ausência das flores
obliterada
minhas dores mais ainda

Sábado

em Santo Antônio do Pinhal


"Pinheiros do Brejo", Henrique Coutinho

de entre pinheiros
a entardecena solar
dilui-se, esparge-se
um pincel rege
elementos
pigmentos de outono
de luz e de água

foto síntese de
sutileveza
onde tudo com a beleza
se atrela:
o que era prerrogativa
da natureza
passa então a ser aquarela

Domingo

além da semeadura


"Arrozal", Henrique Coutinho

num piscar de pálpebras
piscianos olhos de devaneios
aquarelevam para a tela
quadriculados hectares
de verdes arrozais

notório é que por eles
sóis e ventos passaram
onde hoje rumo de pincéis
só não se sabe se beleza
ou alimento
o que ali germina mais

olhando lírios no campus


"Lírios", Vincent van Gogh

nem tecelões
nem fiandeiros
florescem os lírios
como sendo cientes
de que de sua beleza
o império é vão

teares à parte
não sabem nem
nunca souberam
quem fora o
rei Salomão

Sábado

da poesia de arcas e ilhas


para o grande poeta Alexandre Bonafim

tua é a palavra
constelada
teus os solstícios
anjos, oceanos
e presságios
azuis todos e trigais

também é tua a lira
que tange outonos
e eternidades
do amor coadjuvando
tardes, impérios
cópulas e madrigais

urbano Orfeu
de primaveras e moinhos
nas adjacências do
verso teu
orbita e viceja o sol

Domingo

entre cirros, gigas e allemandes

como que tirados
de um alaúde
versos quero
repletos de música
meu coração barroco
neles estampado

mais o vento, seus
bemóis
para adiante levá-los
entre mosaicos
de nuvens
pouco mais que
além disso

mesmo que o sol
se esquive
ou o azul se
faça omisso

de sul a norte o caminho se perfaz

sem delongas ou adeus
disperso-as assim
palavras, gelosia afora
ainda que na invernada
périplo pelos campos
para encetar a jornada
elas que são do
coração meu os ais

depois que singrem no vento
em silente permuta
e venham a mim novos
pontos cardeais

Quinta-feira

pelo fogo acorrentado

não vou afogar
num etílico oceano
o repisar da sina
de amores malogrados
posto que à paixão
intrínsecos são
o cambalear, a queda
o permanecer alucinado
a dor que destila

então eu, Prometeu atormentado
destarte salvo o fígado
mas pela eternidade fica
o coração dilacerado

Domingo

antes que se apague

contemplo seu átimo
que é (e me) chama
funâmbulo o lume
na ponta do pavio
qual inflada vela em
cume de navio

ímpeto ígneo
que oscila e remonta
a destinos do vento
é como o existir
em cada momento, rito

e nada tira a beleza
mesmo do que de antemão
sabemos finito

Terça-feira

almost invisible

cerúleo julho
eu sem palavras
seguia em solidão
de eterno entreato
e só uma ave
impedia-me o mais
cabal anonimato
cantando sem legato
que bem me via
não obstante ausente
toda a poesia

Segunda-feira



rio de palavras, choro

entre pedras e vida
derramo esse rio
poesia essa que deságua
com acréscimos do estio

derradeira foz é o papel
para minha voz
que sobrevém corredeira
em seu avanço de
nunca remanso

ainda que a emoção inverne
se interponha a dor
em meu curso
ou o coração se afiance
outonal
caudal é meu estilo

Quinta-feira

rumo ao sol do sul

vão elas tão belas
as aves peregrinas
em sua orquestral formação
que talvez pássaros não sejam
mas anjos sim
e se de seis asas
serão serafins



Quarta-feira

romântica (joycíclica)

a plenilua já foi
minguanova
e quartocrescheia

Domingo

flights and beehives

proletária ela
zumbelha
entre o que verdeja
asas em faina
de pouso e voar
amarelambendo a flor
insinuando vislumbres
de favo e mel

mesmo que não caudal

de Pessoa não invejo o Tejo
pois, arcanos ciclos da natureza
as lusitanas águas onde
singravam os olhos dele
aqui ribeirinhas foram um dia

e não importa se inverno
outono, primavera ou estio
ora dormente, ora enchente
é o Mandu nosso eterno rio


Graciliano

em tuas linhas
nunca tortas
mais que o agreste
ou a odisséia no sertão
teus cenários são
a humana condição

que está na ambição
pela terra
no cárcere da seca
no semear da fome
no desterro nordestino
na aridez da existência
palmilhada sob o sol a pino

neste de letras panorama
áspero e despojado
qual a caatinga
ainda a beleza vinga
seja numa cadela magrela
em celas da ditadura ou
na agrura por um periquito

e em meio às ossadas
angústias e seres
beirando o precipício
lapidar palavras
foi o teu ofício

Terça-feira

como se fora Stradivarius

nobre madeira
a da poesia
que merecedora se faz
do entalhe preciso
de quem cumpre
ser artesão

uma vez luthier
entre palavras
mais que cravelhas
ou cordas
a ela dou o timbre
que melhor traduz
emoção

bípede e trôpego

por asas não ter
dos flamingos invejo
o vôo transversal e rosa
ou dos albatrozes
os oceânicos traslados
eu que quase nada
posso ser

eu que não posso voar
nem como alva ou gris gaivota
em costeira existência
longe das magnas águas
de alto mar

conquanto que semeadura

versos estes que
me tomam aos pares
ora episódicos senão
quando bissextos
não os semeio para
a eternidade
a esmo atiro-os
entre céus e o chão

deixo ao critério do
vento espargi-los
ou mesmo que não
e que germinem em
primaveras outras
ou adormeçam sem
prazo de colheita
em qualquer estação

sem falar das madressilvas

vermelho amarilis
açaflor lilás
coroloura de calêndulas
anil e branco manacá

assim a natureza
a cor portiflora
olhos levando
em vôo vejaflor

funâmbulo na linha do Equador

a inspiração vem
a galopégaso
ou parte sem preâmbulos
incerto é seu tempo
de ir ou de chegar

uma arte o versejar
equilibrar palavras no
gume da navalha
conquanto sejam
elas fugidias
mesmo estando na
palma da mão

music box

têm surpresas
as caixas de música
em sua mecânica e
precisão
que o digam dedos
e corda
após em calculada
e maquinal luta
esgrimir:
quando não berceuse
uma chacona que se
soma à bailarina
no espelho a refletir

homem ao mar

é o poeta a ostra
sem o nácar iridescente
transmutando a dor
em pérola reluzente

Segunda-feira

Vulcano hodierno

bigorna, martelo
frágua e fole
golpeio frases como
cabe a quem
se pretende um artesão

a poesia, forjo-a
em silêncio
quando a palavra incandesce
e abrasa a emoção

pescando com Tarsila

o horizonte em serra
litorâneos verdes e anis
ovaladas copas, casas sem
arquitetônica ousadia
e com a sétupla altivez coqueira
contrasta una a bananeira

pelo exercício do ofício
vem ao pescador
enredada a recompensa
e no reinado de Netuno
do peixe configura-se a captura
após azul espreita



Quarta-feira

afroditas

(para Fernanda Pereira)

não quero a fêmea
moriblonde e silicupletada
que ostenta um falsolhar
lápis-lazzurro

eu privielogio o afrotraço
a negritez
o cabelo arrepixaim

Terça-feira

minha Charlotte Rampling (blumenalva)

antes em sete
no quarto do flat
com quatro cores
o arco-íris se fez

azuis ocelares
ouro em fios
mais mucosas rosas
na branca tez da nudez

lacrimarum

não é isento de emoção
da rosa o despertar
amanhecendo em vermelhidão
mais que a cor de sangue
para quem quer que veja
estão nas pétalas que se abrem
pérolas que o orvalho lacrimeja


Segunda-feira

blanc, rouge et rosé

não é mister pisotear
como às uvas as palavras
ou apressar-se para delas
extrair o melhor sumo
que em seu natural rumo
recende sutil bouquet

pois que difere a poesia
dos processos do vinho
na faina de sua obtenção
embora ambos embriaguem
e prestem-se à libação

que espere Baco então
repousem meus versos
nos tonéis do tempo
justo é o passar dos anos
aos que de melhor safra são

Bel na órbita de Saturno

um Ticianjo
nela algo havia
da alta renascença
fosse a alva pele
ou o tinto ouro fulvo
dos anelados fios

seria ela então
minha Vênus de Urbino
entre sons de lira
e poesia
assim um flecheiro
Cupido prometia

irrealizado,este amor
a outros somou-se
em crescente galeria

entrudesca

introitu da quaresma
em tétrade o número de dias
estabelece o samba
a cor do calendário

o ritmulato batuquebra
silêncios
reverberram cuícas
tudo ornamente:
foliondas, seres caricatos
públicas e enfeitadas vias
a dança entre serpentiras

sol e noite o país pára:
que espere o trabalho
a triunfal passagem do corso
o carnaval dá o tom à lira

Domingo

folhetinesca ou pequeno portfólio de Nelson Rodrigues

óbitos ululantes
tricoloriam
o obscenário carioca

no álbum de família
bonitinhas e ordinávidas
vestidas de libidinoivas
selvagemiam no asfalto

ante o olho que
unilacrimejava
sete gatilhos:
quem incestuousaria
levantar o pano?

Abaporu

quão grande o pé no chão
e distante o cérebro
pequenino:
uma antropofigura
desnudescansa
sob o sol a pino

cores e traços deformatizam
intensifirma-se do humano ser
aguda visão
enquanto um cactostenta
o bioma da caatinga
em meio à azulidão

barroca (a tre)

o violinorteava
harpiscordes
e a sonata oboera

nauticarta ou pedindo os préstimos de Colombo

no oceano do amor
meu coração leviatange
naufrágios
sem direito a istmos
ou estreitos

e quando a paixão aventa
não há sextante
ou um só instante
que me livre da tormenta

ultrapassados os quarenta
haverá tempo para
um curso de genovegação?

em meio à precipitação da quarta-feira

gotas tamborilacrimejam
baça fica a vidraça
redesenhando um céu
que nimboscila e
trovoabre-se

mas sempre é tempo
de bonança
a esperança é a última
que se molha

fiquemos então
na expectativa dele
arcolorido a levitar
em sua chegada
espetacular


ms. Battle

pouco me importam
teus embates de
prima donna
lendários sejam ou não

exsultate, jubilate
bastam-me teus
schubertenidos e
mozartrinados
ou o sopranuance de
teus vôos de coloraltura

pois se teu canto
é leggero
em mim se fez eterno

ao setentrionorte do reino uníssono

escocena:
quem em saia
toca gaita de fôlego

Das Lied Von Der Erde

nada mais sei
que são canções
da terra
em indecifrável hieroglifala
germânica
em lírica trama orquestral

mas até ouvidos moucos
dirão que são
do belo a voz exata

então, Gustav Mahler
fica aqui o meu recado:
sua música, mais
que sublime
redime e salva

no chão da Via Láctea

meu horóscopo sagicentauro
dispara flechas ao infinito
inclina à filosofia e viagens
pelo que retrata o planisfério

talvez isso explique porque
mesmo caminhando
no provincenário
da minha sina proletária
eu mire estrelas na imensidão

taurus na paisagem

um sem número de horizontes
verde chão convexo
e entre eles situado o casario
de janelas de azul quadricular

eventuais cercados
diversa flora singular
reina alvo o solitouro
rubras aspas seu coroar


toque show

entre atablagues
bongordo Jô soava

Operários (ainda Tarsila)

no paulicenário
elevam-se arranha-sóis
e monólitos fabris
de hálito gris

tece seu fabulário
de credos e degredos
um clã de proletários:
como que pedra sobre pedra
rostos sobrepostos
sob bandeirantes azuis

mosaico de itinerantes
assim medra degrau a degrau
a pirâmide facial


palco Autran

clap, clap, clap
silencio aqui minha
onomatoplatéia

um deus dormiu aqui
e após o sopro do noroeste
o céu não pode esperar:
serão autores em busca
dos personagens Zeus

vai em paz, Paulo
quixotelo
jamais avaro em
seu talento
é findo o jogo

leva teu reinado Lear
a outros mundos
viajante do agora e sempre
e nunca mais caixeiro

antroxifopagia

sol cítrico e pictórrido
caricactus e bananeira
ciclope salta um
seio à dianteira

exacerbrada tudo
o que se diz forma
curvilinhas e espectro abrasacor
acasalado a lado, sem ornato
sui gêmeo o duo se mantém

e o que é de quem
pernas, pés, o próprio tato
se confunde e desafia
em civil estado de amalgamia


cadente

andarilha estrela
em seu propulsonho
não diz de que galáxia
é egressa
ou a que era remonta
seu pulsar primeiro

mas basta a mim sua beleza
de eternidade e instante
célere bólide errante
que se faz fugaz candeeiro

paulicena desgarrada (pré-metroviária)

outro jeito não trem:
quem não vai jaçanantes
das onze horas
adoniranda na garoa

Tarsila, sol permanente

amarelocêntrico
ecoa em semicírculos
um sol estilizalvo
que horizonta seu vôo
em tom primário

formalizam o cenário
despojamento, azul
verde e caricata flora
e de tão poente
esta tarde não demora


réplica ao oráculo ou conversando com meu fecho éclair

uma certa nonsensibilidade
permeia meus leitmotivos
meus tresvarios não
alcançam o além-mar
e o que intento nem
sempre se perfaz

outrossim assento
minhas palavras
feito tijolos em
babélica construção

Claude sobre telhas

tarde quase monetípica:
impressionuvens que
o sol leva avante
em pincelépidas

nenufaltam apenas
fêmeas no jardim

Sábado

de Homero e de amores

dar ouvidos às sereias
custou-me uma odissérie
de naufrágios
do bater às portas do Hades
até a perda de Penélope

basta da fúria de Poseidon
a Atena peço agora um sono lótus
sou olho cego de ciclope
falta-me phsyque du rôle
para ser Ulisses neste mar

arcadian revival ou coisas de João Gilberto

o zéfiro do ar condicionado
desafina a minha lira

bossa in Rio (Rodrigo de Freitas hall)

registro de um cisnegrafista:
na beira da lagoa, gansolando
João marrecanta sincopato

eu, Portinari e os campos de arroz

semealto está o campo
na paisagem prosplena
a solidão
o sol mal se declara
não há asas de quem
espantocar:
tão-somente verde e
nunca vendaval

braços sobrestados
fica inanimóvel ele lá
rota escultura cinzelada
a óleo e pincel
crucifincado e mudo
em seu gólgota campesino
qual anônimo cristo
em meio ao arrozal


cânone estético para versejadores

escrever felizmente
não exige operações
de aritmétrica

basta ouvir a vida
mezzosoprar
e assoviar no mesmo tom

Luiz I, baião rex

o imperador do som do fole
tanto falava ao corpo que bole
quanto às almas em séquito
na cena da caatinga

sanfônico (em concertina)
narrava Gonzaga a saga
da sina nordestina

vendo através de Vincent

sob o azul constelado
do espaço
o Terraço Café:
garçon em pé
personagens e mesas
do anonimato
um casal que chega
em stacatto

pedras, janeluzes
um rumor de arvoredo
eis ali a Place du Forum
em meio às sombras
da silhueta citadina

e mais o amarelo
(chancela de quem
a tela assina)

dorivaneios

uma artesanave
oceanda
jangaderiva
e burlavento

Nove Bachianas Brasileiras ou tributo dissonante a Villa-Lobos

se a flautateia fagotecendo
o pianorteia e orquestraduz
preludizeres
aqui o que violoncela
bachianda
sopranocula cantilendas

arte afromarcial

da capoeira a roda
é humana mandala
onde ao centro em duo
se gingolpeia e dança
e quem o arame tange
tudo berimbala

eternamente Pessoa

guardador de
livros e rebanhos
quantos foste não sei
tão incerta é esta
matemática

mas ouço em mim
o eco de tua lira
erma e arcana
e o que a palavra
tua alardeia
no meu peito corre rio
e vira aldeia

futeballet (ou Robson de Souza em momento solo)

pedalépido e driblefando
ensaia sua coreografila
pás de valse, plié, pás de deux
ultrapassando a ziguezaga
triunfante, enfant

gatogravura

elegance é sua
primordial felinuance
mesmo que isso soe
e soa mesmo siamesmice

ele que tailandescende
elasticoleia o corpo
ton sur ton marrom
em seu siaesmo ronrondar
olha bleu e desafia

na libidança (ao notivagar)
não canta em dó ou ré: mia

partitura ou um aforismo incontestável

qual um maço
de dinheiro
um acorde é feito
de notas empilhadas

oiticíclica

membro da rupturma
Hélio oiticinde com
a arte emoldourada
exposiciona, performaliza
parangoleva cores
feito barco-íris
decretraçando o fim
da limitela


carnavalsa


"Pierrô, Arlequim e Colombina", Di Cavalcanti

você não colombina
comigo
impávida ela me diz

o entrudo desmarcha:
fico eu pierroto
como nunca arlequis

pondo fim à secessão

sonho nós num
beijo Klimt
mosaicobertos e
envoltos ambos
de paixão

ao mesmo tempo
terno e suntuousado
o sentimento é
conquanto bizantípico
se suceda o que vai
ao derredor

seja então você
minha Emilie
pois embora mais
antigo que nouveau
qual ouro brilha o amor
em amareluz

écloga urbana

faltam-me a lira
o cajado
e ainda até o augúrio
da esperança
para compor uma
página campesina

bucolilóquios a me arrebanhar
sei também que
balidos não me obtêm
os préstimos de Caieiro

porém o que fazer
quando Fernando ressoa
se a poesia é em mim
uma récita intempestiva?


fenicius rave

um rioscila em seu reentorno
correnteima pela dublireland
babeliqueffeyto em wordegraus
giordanas brumas
tuto quanto circula e pulabelle
não cria vinco cosmonogâmico
Desdren que Adam fremme Eve

catedral do Bom Jesus

um par de torres
sino, arcos e vitrais
mais descompasso
de relógios
arrulhos de pombos
e fiéis por alvejar

ah, e a escadaria
que ao contrário do altar
alberga sem cobrar